A entrevista do pioneiro Ferdi Alici ao Estadão revela, sem querer, um manifesto sobre como criar sistemas de inteligência artificial verdadeiramente centrados no ser humano.
Quando Ferdi Alici, fundador do estúdio Ouchhh, diz que ele e sua equipe têm “a mesma mentalidade de Van Gogh e Michelangelo”, não está sendo arrogante, está sendo preciso. Ele não compara o resultado do seu trabalho ao de Van Gogh, compara a postura, a atitude diante da folha em branco, ou do conjunto de dados, antes que qualquer traço seja feito. E é exatamente aí que mora uma lição urgente para quem constrói sistemas de inteligência artificial.
Durante décadas, o debate sobre IA centrada no ser humano ficou preso em frameworks de governança, princípios de ética e regulações de conformidade. Tudo necessário, mas nenhum deles resolve a questão mais fundamental: como se decide, antes de escrever uma linha de código, o que o sistema deve ser? Qual é a pergunta que ele levanta? A que alma ele pretende tocar? Essas são perguntas de artista. E são, também, as perguntas que todo desenvolvedor de agentes de IA deveria fazer antes de qualquer outra.
A armadilha da ferramenta
Alici é explícito: “A IA não é uma ferramenta. Na verdade, ela parece mais uma espécie de parceira colaborativa.” Essa distinção pode parecer semântica, mas é estrutural. Quando tratamos IA como ferramenta, todo o fluxo de criação se orienta pela capacidade da ferramenta. Fazemos o que a ferramenta permite. Criamos prompts para o que o modelo consegue gerar. Desenhamos interfaces para o que a API retorna. O ser humano vai se ajustando ao sistema, não o contrário.
“Quando você fica preso no algoritmo e na tecnologia, sua ideia será limitada e ficará presa nas capacidades dos dados. Mas, sem pensar na tecnologia, suas capacidades de criação serão infinitas.”
— Ferdi Alici, fundador do Ouchhh
O estúdio Ouchhh faz o inverso. Parte da ideia, não do modelo. Faz engenharia reversa a partir do resultado final desejado, construindo ou adaptando algoritmos para chegar lá, em vez de descobrir o que fazer com os algoritmos disponíveis. Esse processo não é só metodológico, é filosófico. É uma declaração de que o ser humano, e não a tecnologia, tem precedência no processo criativo. Sistemas de IA responsável seguem exatamente esse princípio. Um agente desenvolvido para contextos de RH, saúde ou educação não deve ser “o que o modelo consegue fazer bem”. Deve ser o que o ser humano, naquele contexto específico, genuinamente precisa. A adequação vem antes da capacidade.
Dados como material expressivo
O mote do Ouchhh, “o dado como tinta e o algoritmo como pincel”, é mais do que poético. Implica uma visão sobre a natureza dos dados que contrasta fortemente com a visão dominante na indústria de tecnologia. Na lógica corporativa convencional, dados são insumo, matéria-prima para otimização, previsão, classificação. Na lógica do estúdio de Alici, dados carregam significado intrínseco que precisa ser interpretado, não apenas processado.
O projeto Human Cell Atlas traduz mais de 37 trilhões de dados sobre células humanas em arte imersiva. O projeto com o CERN transforma leituras do maior colisor de partículas do mundo em experiências poéticas. Em ambos os casos, o que está em jogo não é a precisão do modelo preditivo, mas a inteligibilidade humana do fenômeno. Os dados são tinta porque contêm algo a ser dito, não apenas a ser calculado.
Essa sensibilidade tem consequências práticas para o design de agentes de IA. Um agente que conduz uma escuta qualitativa com um colaborador de uma empresa, por exemplo, não está apenas coletando dados textuais. Está recebendo narrativa, emoção, contexto, silêncio. Tratar essa interação como extração de dados é categoricamente diferente de tratá-la como uma troca que carrega significado. A segunda postura exige cuidado com a pergunta feita, com o tempo dado para a resposta, com o que é feito depois do que foi dito. É uma postura de artista tanto quanto de engenheiro.
Cinco princípios que a arte ensina ao design de sistemas de IA
01Comece pela ideia, não pela capacidade
Antes de perguntar "o que o modelo consegue fazer?", pergunte "qual é a pergunta que este sistema precisa levantar?". O ponto de partida define se o sistema vai expandir ou restringir a experiência humana.
02A interação é a obra, não o output
Para Alici, o que importa em uma instalação imersiva não é a imagem gerada, mas a experiência vivida por quem está na sala. Em sistemas de IA, o mesmo vale: o que fica não é a resposta do modelo, mas o efeito que a interação produziu na pessoa.
03Integre sentimentos em tempo real como dado legítimo
Desde 2015, o Ouchhh tenta "integrar os sentimentos das pessoas em tempo real no processo criativo". Em IA responsável, isso se traduz em sistemas que reconhecem contexto emocional, estado do usuário, e ajustam tom e abordagem, em vez de responder sempre da mesma forma independente de quem está do outro lado.
04Elimine o abismo entre sistema e pessoa
Em um museu, você é apenas um observador. Existe um abismo entre você e o artista. Alici dedica seu trabalho a fechar esse abismo. O design de agentes de IA deveria ter o mesmo objetivo: não um sistema que entrega respostas de dentro de uma caixa preta, mas que cria uma ligação significativa com o ser humano que o está usando.
05Arte tem história. IA responsável também deve ter
No fim das contas, não é sobre criar uma obra de arte com um único prompt, aliás, isso ainda pode virar uma obra de arte incrível, se houver uma história profunda por trás. Um sistema de IA pode ter qualquer nível de sofisticação técnica. O que o torna responsável é a profundidade da intenção que o orienta.
A questão que fica
A crítica mais comum a abordagens artísticas na tecnologia é que são impraticáveis em escala. E é verdade que nem toda empresa de IA tem a estrutura do Ouchhh, com engenheiros, cientistas de dados, artistas de novas mídias e acadêmicos trabalhando juntos. Mas os princípios que Alici articula não exigem um estúdio multidisciplinar para serem aplicados. Exigem uma mudança de postura antes de qualquer coisa.
A pergunta “qual é a pergunta que este sistema levanta?” pode ser feita em qualquer reunião de produto. A decisão de partir do resultado desejado para a tecnologia, e não o contrário, é uma decisão de sequenciamento, não de orçamento. A atenção ao que a interação produz na pessoa, além do que o modelo retorna como output, é uma escolha de métricas. São escolhas disponíveis hoje, em qualquer organização que queira fazê-las.
A IA centrada no ser humano não é, afinal, uma questão de regulação nem de arquitetura técnica. É uma questão de onde você olha quando começa. Artistas olham para a pessoa que vai experimentar a obra. E essa, de toda as lições que a arte tem a ensinar à tecnologia, pode ser a mais simples e a mais difícil ao mesmo tempo.
“Como podemos colocar uma história significativa por trás do processo criativo? Acho que este é o grande desafio.”
— Ferdi Alici
Por Rodrigo Leal
